Esta história nos traz um grande ensinamento sobre a dor…

Tempo de leitura: 10 minutos

Nunca país algum se elevou sem se ter purificado no fogo do sofrimento. – Mahatma Gandhi

Estes dias eu estava meditando sobre o 3 de Espadas, Arcano Menor do Tarot cuja palavra chave é “dor”. Procure no Google e você vai achar diversos Tarots diferentes, porém todos eles remetendo à uma imagem de sofrimento, com 3 Espadas perfurando um coração ou algo do tipo.

O Tarot reflete os arquétipos da nossa vida, e se o 3 de Espadas está lá, significa que sim, a dor faz parte da nossa existência aqui neste plano. Buscando em um livro de Mitos, encontrei a história de Jó, que provém da Bíblia.

Antes de ler o texto, gostaria que você tivesse em mente um ensinamento da Cabala, que diz que temos 4 níveis de entendimento da Torá (Bíblia):

  1. Peshat – Aquele que a maioria dos leitores estão acostumados. É uma leitura literal, e nela vemos um Deus que parece “brincar” com a vida de um homem, o que pelo menos na minha opinião não faz muito sentido, pois eu não vejo Deus nesta energia.
  2. Remez – É um nível que já começa a fazer mais sentido, pois vemos estas histórias como alegorias.
  3. Derash – É um nível com mais entendimento, pois começamos a comparar as metáforas. (É neste nível que gostaria de trabalhar este texto aqui.)
  4. Sod – Um nível que encerra os grande segredos da Cabala, onde a leitura do texto é feito através da Gematria, a numerologia judaica.

Vamos à história…

Havia na terra de Uz um homem cujo nome era Jó, e ele era íntegro e reto e temente a Deus, e fugia do mal. Tinha sete filhos varões e três filhas, e era um homem rico, dono de muitos animais e de uma enorme família; a rigor, era o maior de todos os homens do Oriente.

Mas a prosperidade e o conforto de Jó estavam fadados a terminar. Um dia, uma delegação de anjos se apresentou diante do trono de Deus; entre eles estava Satanás. Quando o Senhor lhe perguntou de onde ele viera, Satanás respondeu: – Tenho perambulado pela face da Terra, observando o que lá acontece.

E disse o Senhor a Satanás: – Viste meu servo Jó no decorrer de tuas viagens? Não há ninguém como ele em toda  a Terra: um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal.

Então Satanás disse: – Jó é temente a Deus por nada? Tu o tens protegido e abençoado; mas estende agora Tua mão e tira-lhe tudo o que possui, e ele blasfemará contra Ti em Tua face.

O Senhor ficou enraivecido  com essa resposta, e disse a Satanás: – Pois bem, submete-o então à prova; e tudo o que ele tem está em teu poder. Apenas sobre seu corpo não estendas tua mão.

E, com grande satisfação, Satanás retirou-se da presença de Deus.

E então a desgraça começou a atingir Jó. Seus bois, jumentos e camelos foram roubados; seus servos forma mortos; e um fogo caiu do céu e consumiu todas as suas ovelhas. Em seguida, seus filhos e filhas foram todos mortos, quando um grande vendaval atingiu a casa em que comiam e bebiam.

Nesse momento, Jó rasgou o seu manto, raspou a cabeça e se prostrou no chão. E disse: – Nu eu vim do ventre de minha mãe, e nu voltarei para  lá; o Senhor deu e o Senhor tomou; louvado seja o nome do Senhor.

E ficou provado que Satanás estava errado, pois, durante todas essas desgraças, Jó nunca blasfemou contra Deus.

Satanás voltou então à presença do Senhor, e este lhe disse: – Não se confirmou que eu estava certo sobre meu servo Jó? Não há na Terra ninguém igual a ele. Ele conserva sua integridade, embora tu tenha te voltado contra ele  e destruído tudo o que tinha, sem nenhuma causa.

E Satanás respondeu: – Sim, mas um homem dará  tudo o que tem por sua vida. Estende porém a tua mão, toca-lhe os  ossos e a carne, e ele blasfemará contra Ti em Tua face.

E respondeu o Senhor: – Pois muito bem, seus ossos e sua carne estão em teu poder, mas poupa-lhe a vida.

E Satanás retirou-se da presença do Senhor, e amaldiçoou Jó com feridas que iam das solas dos pés até o alto da cabeça.

Jó se sentou entre as cinzas e fez uma prece ao Senhor. Então sua mulher lhe disse: – Ainda conservas tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre.

Mas Jó retrucou: – Estás dizendo tolices. Havemos nós de receber o bem das mãos de Deus e não receber também o sofrimento?

Apesar de sua enorme dor, Jó se recusava  a blasfemar contra o Senhor.

Então, os amigos de Jó foram chorar com ele e consolá-lo. Mas só puderam lhe oferecer um consolo ilusório. Alegavam ter a sabedoria para compreender os atos de Deus, mas, na verdade, nada sabiam. Sugeriram que Jó teria pecado sem perceber e atraído sobre si o castigo, ou que Deus o estaria testando e um dia o recompensaria. Suas palavras não levaram consolo algum a Jó, apenas tristeza.

O Senhor, no entanto, ficou irado com as palavras enganosas desses homens, e, de um redemoinho, dirigiu a palavra a Jó dizendo: – Quem são esses que dão conselhos sem conhecimento? Que sabem eles ou tu sobre o poder de Deus? Onde estavas quando assentei as fundações da Terra? Acaso conheces as ordenanças dos céus? E formulou a Jó muitas outras perguntas como essas.

Então Jó disse: – Que hei de responder? Porei a mão sobre minha boca e nada mais direi.

Então o Senhor devolveu a Jó tanto quanto ele tinha antes de Satanás destruir tudo. E, com o tempo, ele teve mais sete filhos varões e três filhas, e viveu cento e quarenta anos, e viu seus filhos e os filhos de seus filhos, até  a quarta geração. E então morreu.

Gostaria de destacar alguns trechos aqui para reflexão:

Mas a prosperidade e o conforto de Jó estavam fadados a terminar. – Aqui já podemos ver os mistérios dos ciclos. Esta aqui expressa a Lei do Ritmo (leia mais aqui), que mostra que tudo é cíclico. Momentos de alta se alternam com momentos de baixa. Já postei aqui um conto Sufi que nos ensina muito bem essa verdade, você pode ler aqui.

Satanás respondeu: – Tenho perambulado pela face da Terra, observando o que lá acontece. – As energias negativas estão sempre rondando, estão à nossa volta o tempo todo. Se você leu o texto das 7 Leis do Universo, viu como o Princípio da Vibração pode atrair estas energias negativas para a nossa vida.

Nu eu vim do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá – Jó nos traz aqui uma grande verdade, desta vida não levamos nada de material. Somos espíritos passando temporariamente por um plano material, do pó viemos e ao pó voltaremos. A única coisa que levamos é a nossa consciência. Já dizia Maomé:

A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo.

E Satanás respondeu: – Sim, mas um homem dará tudo o que tem por sua vida.  – Aqui temos um outro ensinamento. O homem não desperto é geralmente vítima de um egoísmo. A ilusão da separação faz com que ele se preocupe mais com ele mesmo, embora a grande verdade é que ele está conectado com o Todo.

Então sua mulher lhe disse: – Ainda conservas tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre. – Muitas vezes influências externas vão nos afetar. Se nos rodearmos de pessoas negativas, elas poderão influenciar na nossa integridade, persistência e fé para com os nossos objetivos.

Havemos nós de receber o bem das mãos de Deus e não receber também o sofrimento? – Novamente lembro aqui sobre as 7 Leis, Jó nos fala aqui sobre a Lei da Polaridade. Bem e mal são dois pólos de uma mesma energia, se um existe, é porque o outro também tem de existir. Como conheceríamos o bem se não houvesse o mal? Como poderíamos reconhecer a Luz sem a Escuridão?

Suas palavras não levaram consolo algum a Jó, apenas tristeza. – Aqui podemos ver uma grande verdade. Somente aqueles que passam pelo sofrimento podem entendê-lo. Quem está de fora pode ter uma ideia, mas não pode sentir exatamente o que o outro sentiu. A melhor forma de ajudarmos alguém em sofrimento é primeiramente reconhecer e acolher o que a pessoa sente, sem querer trazer respostas (Isso pode ser bem desafiador, pra mim por exemplo é bastante. Se você gosta uma pessoa, vai querer ajudar ela a resolver de qualquer forma.)

Então o Senhor devolveu a Jó tanto quanto ele tinha antes de Satanás destruir tudo. – Aqui vemos novamente a Lei do Ritmo. Como diz na música do Lulu Santos: “Tudo passa, tudo sempre passará…”

A história de Jó nos mostra a importância de permanecermos firmes em nossos ideais. O que quer que esteja acontecendo na sua vida faz parte da sua evolução espiritual.

Para trazer um exemplo real sobre tudo isso que gostaria de passar neste post, deixo aqui a história de Anita Moorjani, que teve uma experiência muito forte com o câncer. Esta doença terrível acabou fazendo com que ela despertasse para a consciência da Unidade. O exemplo que ela dá da lanterna é perfeito para entendermos isso.

Nas palavras dela:

E a sua vida é um presente, mesmo os desafios que chegam a você são um  presente. Quando estava com câncer, foi o maior desafio que poderia ter tido, mas hoje ao olhar para trás, foi o maior presente que poderia ter ganhado. As pessoas pensam que o câncer, pelo menos eu pensava, que o câncer estava me matando, mas na verdade eu estava me matando antes do câncer. O câncer salvou a minha vida. Todos os seus desafios são presentes. Por fim, sempre sabemos que os desafios são presentes. Se estamos sendo desafiados, e ainda não parece um presente, significa que ainda não chegamos ao fim.

Para finalizar a reflexão, deixo aqui duas frases de Viktor Frankl para a sua meditação:

Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida.

Aquilo que quiser emitir Luz, deve suportar o calor do Fogo.